/Este cara tinha o primeiro protótipo do Ford Mustang Boss 302 desde 1978 e não sabia disso

27/10/2015

larry-shinoda-boss-1

Os fãs de muscle cars estão entre os mais detalhistas do mundo no que diz respeito às diferenças entre anos e modelos — acessórios que só foram oferecidos por alguns meses, cores disponíveis por pouco tempo, edições limitadas… dificilmente alguma coisa passa despercebida aos olhos dos entusiastas.

E foi graças à esta atenção a detalhes que, para a maioria das pessoas, são insignificantes, que o americano John Grafelman e seu filho Jason descobriram que o Ford Mustang 1969 que ficou parado no celeiro da família por anos era nada menos que o primeiro protótipo do icônico Mustang Boss 302, tendo pertencido ao próprio Larry Shinoda.

larry-shinoda-boss-6

 

Para quem não sabe, Shinoda foi o projetista do Boss 302, versão de apelo mais esportivo criada como reação ao sucesso crescente do Chevrolet Camaro. Antes disso, o designer trabalhou com a General Motors, onde foi responsável pelas belas linhas do Corvette Sting Ray de 1963 e por seu sucessor, de 1968. Nos fim dos anos 1980, quando já trabalhava como freelancer para diversas fabricantes, Shinoda desenhou o conceito XJC para a Chrysler — que se tornaria o primeiro Jeep Grand Cherokee em 1991.

Deu para entender, então, que Larry Shinoda foi um dos maiores designer americanos de todos os tempos, não? Sendo assim, ter em sua garagem um protótipo de Mustang que pertenceu ao próprio designer do carro é realmente algo para se orgulhar. Quer dizer, desde que você saiba disso.

boss302-1

 

De qualquer forma, qualquer Mustang Boss 302 já é especial por seus próprios méritos. Trata-se de uma versão do Mustang lançada em 1969 e equipada com um novo motor de 302 polegadas cúbicas (cinco litros), que usava como base o projeto dos V8 Windsor, porém com diversas modificações: quatro parafusos por mancal, virabrequim forjado, bielas bem mais parrudas, cabeçotes com dutos e válvulas enormes (que vieram com o cabeçote do 351 Cleveland) e comando com tuchos mecânicos e graduação muito mais nervosa. Até o material do bloco era diferente, de uma liga rica em níquel.

 

boss302-3

O V8 302 também era capaz de girar bem alto para um motor americano dos anos 60, sendo feito para atingir até 7.000 rpm com segurança. Nisto, entramos na outra missão do Boss 302: ser um muscle car de corrida vencedor na Trans-Am, como explicamos aqui. A versão de pista entregava algo entre 450 cv e 470 cv, enquanto o modelo de rua era ligeiramente amansado para entregar cerca de 300 cv, enquanto o limite de giro ficava pouco abaixo das 6.000 rpm.

O Boss 302 foi vendido apenas em 1969 e 1970 e, seja pela mecânica com pedigree de competição ou pelo visual único — com uma nova dianteira, faixas decorativas nas laterais, persiana sobre o vidro traseiro e um característico aerofólio na tampa do porta-malas —, tornou-se um dos Mustang mais cultuados de todos os tempos. Sem falar no fato de ele ser relativamente raro: em 1969, foram produzidos 1.628, com 7.013 no ano seguinte. E mais nenhum, ainda que milhares de réplicas já tenham sido feitas no mundo todo desde então.

boss302-4

Só que a gente tem certeza que nenhum Boss 302 das antigas que tenha sobrevivido até hoje é tão valioso quanto o carro que John Grafelman comprou em 1978. Como ele conta neste artigo da revista Hot Rod, quem lhe vendeu o carro foi um fazendeiro que, na hora da venda, disse que aquele Mustang tinha “uma boa história”. Só que ele não imaginou que seria uma história tão boa.

O envolvimento de Shinoda com o Boss 302 foi muito forte. Ele tratava o projeto com absoluto sigilo e, quando falava a respeito, dizia apenas que era “o carro do chefe” — o que deu origem ao nome da versão. Também era uma referência ao então presidente da Ford, Semon “Bunkie” Knudson. Ambos haviam trabalhado juntos na General Motors, e Knudson foi o responsável pela chegada de Shinoda à Ford.

O fato é que o pontapé inicial no desenvolvimento do Boss 302 foi a compra de um Mustang Mach 1 1969 equipado com um V8 428 Cobra Jet, de sete litros e 340 cv. Junto com sua equipe na Ford, Shinora realizou algumas modificações estéticas no carro, definindo o visual preliminar das faixas decorativas, da persiana e da asa traseira, além de aplicar emblemas e adesivos “302” mesmo que o motor fosse outro.

larry-shinoda-boss-3

 

A única modificação mecânica realizada por Shinoda, que usou o carro por alguns anos e rodou cerca de 112 mil km com ele, foi a instalação de coletores de admissão de alumínio no lugar dos originais, de ferro. Isto levou John a pensar que o carro se tratava de um Mach 1 caracterizado como Boss 302. O que seria bem plausível.

No entanto, o fazendeiro que vendeu o carro sabia que se tratava de um carro historicamente importante. John e a esposa se referiam ao carro como um Mustang de “edição limitada”, mas nunca pesquisaram a fundo o motivo, limitando-se a notar que algumas das características de seu carro não batiam com as encontradas nos Boss 302 do mesmo ano.

larry-shinoda-boss-4

 

 

As medidas da asa traseira, o formato das persianas e o scoop do tipo shaker no capô eram evidências fortes. Apesar de tudo, ele usou o carro normalmente por anos — até que seu filho Jason ficou grande demais para se acomodar no banco traseiro com facilidade.

larry-shinoda-boss (5)

Foto: Hot Rod

Em vez de vendê-lo, John encostou o carro em um celeiro e o deixou por ali. Jason Grafelman, já homem feito, herdou de seu pai a paixão pelo Mustang, e sempre participava de eventos e encontros de entusiastas do pony car. Então, há cerca de 12 anos,  os dois decidiram descobrir a verdadeira história daquele Mustang Boss 302 com motor 428.

Visitando oficinas especializadas, Jason descobriu evidências de que o carro de seu pai poderia ser o protótipo de Larry Shinoda. O dono de um dos estabelecimentos tinha uma foto do carro ao lado das duas filhas pequenas do designer e, ano após ano, novas pistas surgiam.

larry-shinoda-boss (2)

A evidência final foi o botão da buzina no volante, que trazia as letras “LB”. John lembrou que o Corvette de Larry Shinoda tinha as letras “LC” (de “Larry’s Corvette” no botão da buzina, então o “LB” poderia muito bem significar “Larry’s Boss”.

larry-shinoda-boss (7)

Em determinado momento, Jason conseguiu acesso a uma fatura emitida pela Ford a “L Shinoda”. O número do chassi descrito no documento correspondia ao carro e, colocando fim a qualquer dúvida. Isto aconteceu em junho de 2015.

1969-ford-mustang-boss-302-larry-shinoda-invoice

 

O mais incrível de tudo isto é o fato de que John conhecia havia muitos anos a história do protótipo. Ele sabia que Shinoda havia vendido o carro em algum momento entre 1970 e 1972, e consta que o designer sempre se perguntava onde seu carro havia ido parar.

larry-shinoda-boss (9)

Ao contrário da maioria dos barn finds que vemos por aí, porém, este não será leiloado em algum evento de carros antigos. John já tirou o carro do celeiro e pretende restaurá-lo, a fim de exibi-lo em eventos por todo o território americano. E ele quer que o carro vá rodando. Tem como não respeitar esse cara?

(Fonte: Flatout)

Comentários