/DeLorean DMC-12: o carro dos sonhos que se tornou um pesadelo e virou ícone do cinema

21/10/2015

Daft Punk DeLorean Shoot

 

É bem provável que você tenha sido apresentado ao DeLorean DMC-12 pela trilogia “De Volta Para o Futuro”, iniciada em 1985. Mas ele foi muito mais que uma mera máquina do tempo do cinema. Bem… na verdade ele tentou ser, mas acabou morto e enterrado por uma sucessão de equívocos de seu criador, e uma série de boatos maldosos que arruinaram a reputação da marca, repetindo a história de Preston Tucker nos anos 1940.

A história do DMC-12 começa em 1973, quando John Zachary DeLorean deixou a General Motors para realizar seu sonho de criar sua própria fábrica de automóveis. DeLorean fora um executivo bem sucedido na GM, onde “inventou” o muscle car ao desenvolver o Pontiac GTO (leia a história), e mais tarde foi o responsável pelo Chevrolet Nova e seu irmão menor, o Chevrolet Vega.

Esse sonho de ter sua própria fábrica de automóveis começou dois anos mais tarde, em 24 de outubro de 1975, quando ele fundou a DeLorean Motor Company. Para captar recursos e viabilizar seu sonho, ele construiu um protótipo daquela que seria seu primeira (e, infelizmente, única) criação independente. Ele queria que seu carro fosse uma perfeita expressão de seus valores pessoais: esportivo, mas também racional, durável, econômico e seguro. DeLorean via seu carro como o supercarro dos novos tempos pós-crise do petróleo.

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O projeto

Para projetar seu novo carro, DeLorean contratou um antigo colega da Pontiac chamado Bill Collins. O estilo da carroceria ficou a cargo de ninguém menos que Giorgetto Giugiaro. DeLorean especificou que o carro precisaria ter motor central traseiro, monocoque de plástico e chapas de aço inoxidável para que se mantivesse na casa dos 1.000kg.

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O baixo peso poderia garantir a economia de combustível, enquanto o aço inoxidável tornaria o carro imune à corrosão. Ele foi inicialmente batizado como DSV, de DeLorean Safety Vehicle, mas com o fracasso comercial de um outro veículo “seguro”, o Bricklin Safety Vehicle 1, DeLorean decidiu mudar o nome do carro para DMC-12.

Em 1976 ele apresentou o primeiro protótipo à imprensa. Com a promessa de fazer um carro revolucionário em todos os aspectos — da forma de construção ao desempenho e segurança —, ele conseguiu reunir empréstimos do Bank of America, e investimentos privados através de parcerias com o apresentador Johnny Carson, e os artistas Roy Clark e Sammy Davis Jr., além de benefícios recebidos do governo do Reino Unido para construir e fabricar seus veículos em Dunmurry, nos arredores de Belfast, a capital da Irlanda do Norte.

Este primeiro protótipo usava motores de quatro cilindros, mas DeLorean decidiu que o carro precisava ser lançado com um motor V6. Ele chegou a cogitar a adoção do motor Wankel Comotor de dois rotores da Citroën mas, com a falência da fabricante francesa, voltou suas atenções ao Ford Cologne V6, usado no Ford Capri e no Mustang II.

Na mesma época a Renault estava adotando um novo motor V6 para seu sedã R30, e tinha mais capacidade de produção do que sua própria demanda, o que tornou a fabricante francesa mais aberta a negociações de fornecimento. Assim, DeLorean fechou o acordo com a Renault para usar o novo PRV, um V6 e 2,6 litros desenvolvido em parceria entre Peugeot, Renault e Volvo (daí o nome PRV). Além disso, o motor era também mais leve que o velho Ford.

Com o PRV, DeLorean divulgou os primeiros dados de desempenho de seu esportivo: zero a 100 km/h em pouco menos de 8 segundos, velocidade máxima de 209 km/h e consumo médio de 10,7 km/l. Com esses números, o DMC-12 seria tão rápido quanto um Jaguar XJ-S V12, mas usando metade do combustível.

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A fábrica da DeLorean começou a ser construída em outubro de 1978, e a previsão era começar a construir seu esportivo já em 1979. Contudo, uma série de imprevistos com o desenvolvimento do carro atrasou o início da produção para 1981. Esses problemas com o desenvolvimento do carro internamente levaram Bill Collins e John DeLorean a recorrer a ajuda externa. Primeiro eles foram à Porsche, e mais tarde à BMW, mas ambas queriam mais dinheiro do que DeLorean podia pagar. Por fim eles bateram à portas de Colin Chapman, na Lotus, que já tinha grande experiência em carrocerias de plástico. Em 1978, eles assinaram o contrato para desenvolver o DMC-12.

Na Lotus os engenheiros descartaram boa parte do projeto original de Bill Collins, substituindo alguns elementos pelo que já havia sido desenvolvido no Lotus Esprit.

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Um desses elementos era o monocoque plástico do carro, que foi substituído por uma estrutura de duas peças de fibra de vidro feitas com o processo de Injeção de Resina Assistida por Vácuo, exclusivo da Lotus, montada sobre um chassi tipo backbone (espinha dorsal) o Lotus Esprit.

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As mudanças deixaram o carro 227 kg mais pesado do que o projeto original previa. Apesar disso, o consumo médio de 10,7 km/l foi homologado pela agência ambiental americana, mas o fato de o motor ter apenas 130 cv após os ajustes para atender os limites de emissões nos EUA cobraram o seu preço no desempenho.

Começa a produção

Os primeiros carros começaram a sair da fábrica na Irlanda do Norte em 21 de janeiro de 1981, mas os atrasos e gastos fora do planejamento deixaram a DeLorean praticamente sem dinheiro, e John DeLorean recorreu ao governo britânico para investir outros 14 milhões de libras e mais 10 milhões em empréstimos de curto prazo. Mesmo assim, a DMC estava operando com um prejuízo de 18,6 milhões de dólares.

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Enquanto isso, sob os holofotes o público estava animado com o novo carro. A imprensa automotiva divulgava cada etapa da produção em busca de uma chance de testar o carro que eles tanto haviam ouvido falar. Nos EUA, mais de 340 concessionárias já haviam se credenciado para vender e os esportivos, que eram reservados com um sinal de US$ 5.000.

 A dura realidade

Infelizmente, os carros não atenderam à expectativa criada. A DMC havia planejado uma agenda de testes ambiciosa e rigorisa, mas no fim do primeiro semestre de 1981 havia muita pressão para que o carro fosse logo lançado. Por isso, a qualidade de construção dos primeiros cem ou duzentos carros era constrangedora, e a maioria precisou ser reconstruída nos EUA. Para piorar a história, estas primeiras unidades foram destinadas aos principais investidores do projeto.

 

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A imprensa tentou ser generosa com o carro e, em geral, reconheceu a falta de qualidade, mas compreendendo se tratar de unidades de pré-produção e também elogiou o estilo da carroceria e do interior. O maior problema contudo, era o desempenho do carro com uma tocada mais entusiasmada, onde ele se mostrava instável e incômodo.

 

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Além disso, o desempenho em linha reta também não era dos melhores. Com o câmbio original de cinco marchas o tempo de aceleração de zero a 100 km/h era de 9,5 segundos e a velocidade máxima ficava na casa dos 197 km/h. A aceleração até o limite também era bastante demorada. Esse desempenho não era dos piores em 1981, mas ele ficava bem atrás de outros esportivos de sua faixa de preço.

Para piorar, ele era 25% mais caro que o Corvette, o Datsun 280ZX Turbo e o Porsche 924 Turbo — todos eles mais rápidos que o DMC-12. DeLorean não deu bola para esses problemas, dizendo que o consumidor comum não se importava com desempenho e queria apenas rodar por aí com estilo. Apesar disso, ele prometeu lançar no futuro uma versão biturbo para colocar o DMC-12 no nível dos esportivos de sua época.

Antes disso a inflação e a flutuação do câmbio (de Libra Esterlina para Dólar) fez o preço do DeLorean disparar para US$ 25.000, mais que o dobro do preço original. Apesar do otimismo de DeLorean — que chegou a dizer que venderia 30.000 carros por ano em breve — a empresa estava perdendo dinheiro de forma preocupante.

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DeLorean DMC-12: o carro dos sonhos que se tornou um pesadelo e virou ícone do cinema

LEONARDO CONTESINI 18 AGOSTO, 2014 116 COMENTÁRIOS

DeLorean DMC-12: o carro dos sonhos que se tornou um pesadelo e virou ícone do cinema

É bem provável que você tenha sido apresentado ao DeLorean DMC-12 pela trilogia “De Volta Para o Futuro”, iniciada em 1985. Mas ele foi muito mais que uma mera máquina do tempo do cinema. Bem… na verdade ele tentou ser, mas acabou morto e enterrado por uma sucessão de equívocos de seu criador, e uma série de boatos maldosos que arruinaram a reputação da marca, repetindo a história de Preston Tucker nos anos 1940.

A história do DMC-12 começa em 1973, quando John Zachary DeLorean deixou a General Motors para realizar seu sonho de criar sua própria fábrica de automóveis. DeLorean fora um executivo bem sucedido na GM, onde “inventou” o muscle car ao desenvolver o Pontiac GTO (leia a história), e mais tarde foi o responsável pelo Chevrolet Nova e seu irmão menor, o Chevrolet Vega.

Esse sonho de ter sua própria fábrica de automóveis começou dois anos mais tarde, em 24 de outubro de 1975, quando ele fundou a DeLorean Motor Company. Para captar recursos e viabilizar seu sonho, ele construiu um protótipo daquela que seria seu primeira (e, infelizmente, única) criação independente. Ele queria que seu carro fosse uma perfeita expressão de seus valores pessoais: esportivo, mas também racional, durável, econômico e seguro. DeLorean via seu carro como o supercarro dos novos tempos pós-crise do petróleo.

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O projeto

Para projetar seu novo carro, DeLorean contratou um antigo colega da Pontiac chamado Bill Collins. O estilo da carroceria ficou a cargo de ninguém menos que Giorgetto Giugiaro. DeLorean especificou que o carro precisaria ter motor central traseiro, monocoque de plástico e chapas de aço inoxidável para que se mantivesse na casa dos 1.000kg.

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O baixo peso poderia garantir a economia de combustível, enquanto o aço inoxidável tornaria o carro imune à corrosão. Ele foi inicialmente batizado como DSV, de DeLorean Safety Vehicle, mas com o fracasso comercial de um outro veículo “seguro”, o Bricklin Safety Vehicle 1, DeLorean decidiu mudar o nome do carro para DMC-12.

Em 1976 ele apresentou o primeiro protótipo à imprensa. Com a promessa de fazer um carro revolucionário em todos os aspectos — da forma de construção ao desempenho e segurança —, ele conseguiu reunir empréstimos do Bank of America, e investimentos privados através de parcerias com o apresentador Johnny Carson, e os artistas Roy Clark e Sammy Davis Jr., além de benefícios recebidos do governo do Reino Unido para construir e fabricar seus veículos em Dunmurry, nos arredores de Belfast, a capital da Irlanda do Norte.

Este primeiro protótipo usava motores de quatro cilindros, mas DeLorean decidiu que o carro precisava ser lançado com um motor V6. Ele chegou a cogitar a adoção do motor Wankel Comotor de dois rotores da Citroën mas, com a falência da fabricante francesa, voltou suas atenções ao Ford Cologne V6, usado no Ford Capri e no Mustang II.

Na mesma época a Renault estava adotando um novo motor V6 para seu sedã R30, e tinha mais capacidade de produção do que sua própria demanda, o que tornou a fabricante francesa mais aberta a negociações de fornecimento. Assim, DeLorean fechou o acordo com a Renault para usar o novo PRV, um V6 e 2,6 litros desenvolvido em parceria entre Peugeot, Renault e Volvo (daí o nome PRV). Além disso, o motor era também mais leve que o velho Ford.

Com o PRV, DeLorean divulgou os primeiros dados de desempenho de seu esportivo: zero a 100 km/h em pouco menos de 8 segundos, velocidade máxima de 209 km/h e consumo médio de 10,7 km/l. Com esses números, o DMC-12 seria tão rápido quanto um Jaguar XJ-S V12, mas usando metade do combustível.

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A fábrica da DeLorean começou a ser construída em outubro de 1978, e a previsão era começar a construir seu esportivo já em 1979. Contudo, uma série de imprevistos com o desenvolvimento do carro atrasou o início da produção para 1981. Esses problemas com o desenvolvimento do carro internamente levaram Bill Collins e John DeLorean a recorrer a ajuda externa. Primeiro eles foram à Porsche, e mais tarde à BMW, mas ambas queriam mais dinheiro do que DeLorean podia pagar. Por fim eles bateram à portas de Colin Chapman, na Lotus, que já tinha grande experiência em carrocerias de plástico. Em 1978, eles assinaram o contrato para desenvolver o DMC-12.

Na Lotus os engenheiros descartaram boa parte do projeto original de Bill Collins, substituindo alguns elementos pelo que já havia sido desenvolvido no Lotus Esprit.

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Um desses elementos era o monocoque plástico do carro, que foi substituído por uma estrutura de duas peças de fibra de vidro feitas com o processo de Injeção de Resina Assistida por Vácuo, exclusivo da Lotus, montada sobre um chassi tipo backbone (espinha dorsal) o Lotus Esprit.

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As mudanças deixaram o carro 227 kg mais pesado do que o projeto original previa. Apesar disso, o consumo médio de 10,7 km/l foi homologado pela agência ambiental americana, mas o fato de o motor ter apenas 130 cv após os ajustes para atender os limites de emissões nos EUA cobraram o seu preço no desempenho.

 

Começa a produção

Os primeiros carros começaram a sair da fábrica na Irlanda do Norte em 21 de janeiro de 1981, mas os atrasos e gastos fora do planejamento deixaram a DeLorean praticamente sem dinheiro, e John DeLorean recorreu ao governo britânico para investir outros 14 milhões de libras e mais 10 milhões em empréstimos de curto prazo. Mesmo assim, a DMC estava operando com um prejuízo de 18,6 milhões de dólares.

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Enquanto isso, sob os holofotes o público estava animado com o novo carro. A imprensa automotiva divulgava cada etapa da produção em busca de uma chance de testar o carro que eles tanto haviam ouvido falar. Nos EUA, mais de 340 concessionárias já haviam se credenciado para vender e os esportivos, que eram reservados com um sinal de US$ 5.000.

 

A dura realidade

Infelizmente, os carros não atenderam à expectativa criada. A DMC havia planejado uma agenda de testes ambiciosa e rigorisa, mas no fim do primeiro semestre de 1981 havia muita pressão para que o carro fosse logo lançado. Por isso, a qualidade de construção dos primeiros cem ou duzentos carros era constrangedora, e a maioria precisou ser reconstruída nos EUA. Para piorar a história, estas primeiras unidades foram destinadas aos principais investidores do projeto.

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A imprensa tentou ser generosa com o carro e, em geral, reconheceu a falta de qualidade, mas compreendendo se tratar de unidades de pré-produção e também elogiou o estilo da carroceria e do interior. O maior problema contudo, era o desempenho do carro com uma tocada mais entusiasmada, onde ele se mostrava instável e incômodo.

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Além disso, o desempenho em linha reta também não era dos melhores. Com o câmbio original de cinco marchas o tempo de aceleração de zero a 100 km/h era de 9,5 segundos e a velocidade máxima ficava na casa dos 197 km/h. A aceleração até o limite também era bastante demorada. Esse desempenho não era dos piores em 1981, mas ele ficava bem atrás de outros esportivos de sua faixa de preço.

Para piorar, ele era 25% mais caro que o Corvette, o Datsun 280ZX Turbo e o Porsche 924 Turbo — todos eles mais rápidos que o DMC-12. DeLorean não deu bola para esses problemas, dizendo que o consumidor comum não se importava com desempenho e queria apenas rodar por aí com estilo. Apesar disso, ele prometeu lançar no futuro uma versão biturbo para colocar o DMC-12 no nível dos esportivos de sua época.

Antes disso a inflação e a flutuação do câmbio (de Libra Esterlina para Dólar) fez o preço do DeLorean disparar para US$ 25.000, mais que o dobro do preço original. Apesar do otimismo de DeLorean — que chegou a dizer que venderia 30.000 carros por ano em breve — a empresa estava perdendo dinheiro de forma preocupante.

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O começo do fim

Os problemas de qualidade de construção e garantia custaram mais e US$ 4 milhões naquele primeiro ano, e a DMC era obrigada a pagar ao governo britânico quase US$ 400 por carro em impostos, o que reduziu ainda mais as margens de lucro da fabricante. Enquanto isso, DeLorean contava com um salário de US$ 500.000 por ano. Alguns analistas começaram a se perguntar como a DeLorean estava gastando tanto em tão pouco tempo, o que levou o governo britânico a acreditar que DeLorean estava desviando recursos da empresa para uso pessoal. A Scotland Yard iniciou uma investigação, mas depois de oito dias não encontrou nada de irregular.

A solução de John DeLorean para reverter o prejuízo foi contratar mais centenas de funcionários e dobrar a produção, esperando alavancar as vendas. Enquanto isso, no outro lado do Atlântico, os compradores escasseavam. A economia americana entrou em recessão no fim e 1981, em parte devido a um inesperado inverno muito severo. A maioria dos grandes investidores pulou fora, enquanto os carros lotavam os pátios dos concessionários que nem conseguiam mais financiar o modelo pelos bancos.

Mesmo assim, a fábrica continuou produzindo mais e mais carros. Sem compradores, a representação americana simplesmente parou de pagar os carros. No fim do ano, a divisão americana devia cerca de US$ 10 milhões por carros já entregues mas não vendidos, deixando a subsidiária de Belfast sem dinheiro para pagar os fornecedores.

Diante disso, DeLorean pressionou o governo para conseguir ainda mais dinheiro: cerca de US$ 70 milhões. Como a primeira-ministra ultra-conservadora Margareth Thatcher já estava compreensivelmente irritada com os US$ 155 milhões já investidos, o governo conduziu uma investigação minuciosa e impediu o empréstimo sem uma reorganização completa na DMC.

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DeLorean DMC-12: o carro dos sonhos que se tornou um pesadelo e virou ícone do cinema

LEONARDO CONTESINI 18 AGOSTO, 2014 116 COMENTÁRIOS

DeLorean DMC-12: o carro dos sonhos que se tornou um pesadelo e virou ícone do cinema

É bem provável que você tenha sido apresentado ao DeLorean DMC-12 pela trilogia “De Volta Para o Futuro”, iniciada em 1985. Mas ele foi muito mais que uma mera máquina do tempo do cinema. Bem… na verdade ele tentou ser, mas acabou morto e enterrado por uma sucessão de equívocos de seu criador, e uma série de boatos maldosos que arruinaram a reputação da marca, repetindo a história de Preston Tucker nos anos 1940.

A história do DMC-12 começa em 1973, quando John Zachary DeLorean deixou a General Motors para realizar seu sonho de criar sua própria fábrica de automóveis. DeLorean fora um executivo bem sucedido na GM, onde “inventou” o muscle car ao desenvolver o Pontiac GTO (leia a história), e mais tarde foi o responsável pelo Chevrolet Nova e seu irmão menor, o Chevrolet Vega.

Esse sonho de ter sua própria fábrica de automóveis começou dois anos mais tarde, em 24 de outubro de 1975, quando ele fundou a DeLorean Motor Company. Para captar recursos e viabilizar seu sonho, ele construiu um protótipo daquela que seria seu primeira (e, infelizmente, única) criação independente. Ele queria que seu carro fosse uma perfeita expressão de seus valores pessoais: esportivo, mas também racional, durável, econômico e seguro. DeLorean via seu carro como o supercarro dos novos tempos pós-crise do petróleo.

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O projeto

Para projetar seu novo carro, DeLorean contratou um antigo colega da Pontiac chamado Bill Collins. O estilo da carroceria ficou a cargo de ninguém menos que Giorgetto Giugiaro. DeLorean especificou que o carro precisaria ter motor central traseiro, monocoque de plástico e chapas de aço inoxidável para que se mantivesse na casa dos 1.000kg.

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O baixo peso poderia garantir a economia de combustível, enquanto o aço inoxidável tornaria o carro imune à corrosão. Ele foi inicialmente batizado como DSV, de DeLorean Safety Vehicle, mas com o fracasso comercial de um outro veículo “seguro”, o Bricklin Safety Vehicle 1, DeLorean decidiu mudar o nome do carro para DMC-12.

Em 1976 ele apresentou o primeiro protótipo à imprensa. Com a promessa de fazer um carro revolucionário em todos os aspectos — da forma de construção ao desempenho e segurança —, ele conseguiu reunir empréstimos do Bank of America, e investimentos privados através de parcerias com o apresentador Johnny Carson, e os artistas Roy Clark e Sammy Davis Jr., além de benefícios recebidos do governo do Reino Unido para construir e fabricar seus veículos em Dunmurry, nos arredores de Belfast, a capital da Irlanda do Norte.

Este primeiro protótipo usava motores de quatro cilindros, mas DeLorean decidiu que o carro precisava ser lançado com um motor V6. Ele chegou a cogitar a adoção do motor Wankel Comotor de dois rotores da Citroën mas, com a falência da fabricante francesa, voltou suas atenções ao Ford Cologne V6, usado no Ford Capri e no Mustang II.

Na mesma época a Renault estava adotando um novo motor V6 para seu sedã R30, e tinha mais capacidade de produção do que sua própria demanda, o que tornou a fabricante francesa mais aberta a negociações de fornecimento. Assim, DeLorean fechou o acordo com a Renault para usar o novo PRV, um V6 e 2,6 litros desenvolvido em parceria entre Peugeot, Renault e Volvo (daí o nome PRV). Além disso, o motor era também mais leve que o velho Ford.

Com o PRV, DeLorean divulgou os primeiros dados de desempenho de seu esportivo: zero a 100 km/h em pouco menos de 8 segundos, velocidade máxima de 209 km/h e consumo médio de 10,7 km/l. Com esses números, o DMC-12 seria tão rápido quanto um Jaguar XJ-S V12, mas usando metade do combustível.

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A fábrica da DeLorean começou a ser construída em outubro de 1978, e a previsão era começar a construir seu esportivo já em 1979. Contudo, uma série de imprevistos com o desenvolvimento do carro atrasou o início da produção para 1981. Esses problemas com o desenvolvimento do carro internamente levaram Bill Collins e John DeLorean a recorrer a ajuda externa. Primeiro eles foram à Porsche, e mais tarde à BMW, mas ambas queriam mais dinheiro do que DeLorean podia pagar. Por fim eles bateram à portas de Colin Chapman, na Lotus, que já tinha grande experiência em carrocerias de plástico. Em 1978, eles assinaram o contrato para desenvolver o DMC-12.

Na Lotus os engenheiros descartaram boa parte do projeto original de Bill Collins, substituindo alguns elementos pelo que já havia sido desenvolvido no Lotus Esprit.

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Um desses elementos era o monocoque plástico do carro, que foi substituído por uma estrutura de duas peças de fibra de vidro feitas com o processo de Injeção de Resina Assistida por Vácuo, exclusivo da Lotus, montada sobre um chassi tipo backbone (espinha dorsal) o Lotus Esprit.

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As mudanças deixaram o carro 227 kg mais pesado do que o projeto original previa. Apesar disso, o consumo médio de 10,7 km/l foi homologado pela agência ambiental americana, mas o fato de o motor ter apenas 130 cv após os ajustes para atender os limites de emissões nos EUA cobraram o seu preço no desempenho.

 

Começa a produção

Os primeiros carros começaram a sair da fábrica na Irlanda do Norte em 21 de janeiro de 1981, mas os atrasos e gastos fora do planejamento deixaram a DeLorean praticamente sem dinheiro, e John DeLorean recorreu ao governo britânico para investir outros 14 milhões de libras e mais 10 milhões em empréstimos de curto prazo. Mesmo assim, a DMC estava operando com um prejuízo de 18,6 milhões de dólares.

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Enquanto isso, sob os holofotes o público estava animado com o novo carro. A imprensa automotiva divulgava cada etapa da produção em busca de uma chance de testar o carro que eles tanto haviam ouvido falar. Nos EUA, mais de 340 concessionárias já haviam se credenciado para vender e os esportivos, que eram reservados com um sinal de US$ 5.000.

 

A dura realidade

Infelizmente, os carros não atenderam à expectativa criada. A DMC havia planejado uma agenda de testes ambiciosa e rigorisa, mas no fim do primeiro semestre de 1981 havia muita pressão para que o carro fosse logo lançado. Por isso, a qualidade de construção dos primeiros cem ou duzentos carros era constrangedora, e a maioria precisou ser reconstruída nos EUA. Para piorar a história, estas primeiras unidades foram destinadas aos principais investidores do projeto.

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A imprensa tentou ser generosa com o carro e, em geral, reconheceu a falta de qualidade, mas compreendendo se tratar de unidades de pré-produção e também elogiou o estilo da carroceria e do interior. O maior problema contudo, era o desempenho do carro com uma tocada mais entusiasmada, onde ele se mostrava instável e incômodo.

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Além disso, o desempenho em linha reta também não era dos melhores. Com o câmbio original de cinco marchas o tempo de aceleração de zero a 100 km/h era de 9,5 segundos e a velocidade máxima ficava na casa dos 197 km/h. A aceleração até o limite também era bastante demorada. Esse desempenho não era dos piores em 1981, mas ele ficava bem atrás de outros esportivos de sua faixa de preço.

Para piorar, ele era 25% mais caro que o Corvette, o Datsun 280ZX Turbo e o Porsche 924 Turbo — todos eles mais rápidos que o DMC-12. DeLorean não deu bola para esses problemas, dizendo que o consumidor comum não se importava com desempenho e queria apenas rodar por aí com estilo. Apesar disso, ele prometeu lançar no futuro uma versão biturbo para colocar o DMC-12 no nível dos esportivos de sua época.

Antes disso a inflação e a flutuação do câmbio (de Libra Esterlina para Dólar) fez o preço do DeLorean disparar para US$ 25.000, mais que o dobro do preço original. Apesar do otimismo de DeLorean — que chegou a dizer que venderia 30.000 carros por ano em breve — a empresa estava perdendo dinheiro de forma preocupante.

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O começo do fim

Os problemas de qualidade de construção e garantia custaram mais e US$ 4 milhões naquele primeiro ano, e a DMC era obrigada a pagar ao governo britânico quase US$ 400 por carro em impostos, o que reduziu ainda mais as margens de lucro da fabricante. Enquanto isso, DeLorean contava com um salário de US$ 500.000 por ano. Alguns analistas começaram a se perguntar como a DeLorean estava gastando tanto em tão pouco tempo, o que levou o governo britânico a acreditar que DeLorean estava desviando recursos da empresa para uso pessoal. A Scotland Yard iniciou uma investigação, mas depois de oito dias não encontrou nada de irregular.

A solução de John DeLorean para reverter o prejuízo foi contratar mais centenas de funcionários e dobrar a produção, esperando alavancar as vendas. Enquanto isso, no outro lado do Atlântico, os compradores escasseavam. A economia americana entrou em recessão no fim e 1981, em parte devido a um inesperado inverno muito severo. A maioria dos grandes investidores pulou fora, enquanto os carros lotavam os pátios dos concessionários que nem conseguiam mais financiar o modelo pelos bancos.

Mesmo assim, a fábrica continuou produzindo mais e mais carros. Sem compradores, a representação americana simplesmente parou de pagar os carros. No fim do ano, a divisão americana devia cerca de US$ 10 milhões por carros já entregues mas não vendidos, deixando a subsidiária de Belfast sem dinheiro para pagar os fornecedores.

Diante disso, DeLorean pressionou o governo para conseguir ainda mais dinheiro: cerca de US$ 70 milhões. Como a primeira-ministra ultra-conservadora Margareth Thatcher já estava compreensivelmente irritada com os US$ 155 milhões já investidos, o governo conduziu uma investigação minuciosa e impediu o empréstimo sem uma reorganização completa na DMC.

“Esta é a última porta direita a ser fabricada na DMC. Ela foi feita por B. Atkinson, Brian Boyle, Phil Gough, Hugh Barrett, RJ Conden. K. Ferris, Boatman. O fim de um sonho. Será?”

“Esta é a última porta direita a ser fabricada na DMC. Ela foi feita por B. Atkinson, Brian Boyle, Phil Gough, Hugh Barrett, RJ Conden. K. Ferris, Boatman. O fim de um sonho. Será?”

A falência e o fim do sonho

A DMC acabou falindo no final de 1982, logo após a prisão de John DeLorean por um suposto envolvimento com tráfico internacional de cocaína. Ele acabou absolvido, mas já era tarde demais para retomar a produção do DMC-12. O estrago já estava feito. Cerca de 100 carros parcialmente montados foram finalizados após o fim da produção, e as partes excedentes foram enviadas aos EUA para serem vendidas como peças de reposição.

Cerca de 9.200 DMC-12 foram produzidos entre janeiro de 1981 e dezembro de 1982. Quase 2.000 deles foram feitos somente em outubro de 1981 e todos os cerca de mil modelos produzidos entre fevereiro e maio de 1982 foram alterados para serem vendidos como ano-modelo 1983.

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Estrela de cinema e ícone pop

Contudo, em 1985, três anos depois da falência da DMC, os produtores de um novo filme sobre viagem no tempo em Hollywood acharam que usar uma geladeira como máquina do tempo poderia causar uma série de acidentes com crianças que tentassem copiar os personagens do filme. Por isso eles decidiram trocar a geladeira por algo mais seguro, como um carro. O DeLorean foi escolhido por seu visual futurista, reforçado pela carroceria de aço inoxidável

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Ao ser uma das principais estrelas de “De Volta Para o Futuro” (Back to the Future, 1985) ao lado de Marty McFly e “Doc” Emmett Brown, o DMC 12 tornou-se um ícone instantâneo, e um dos carros mais famosos da história do cinema. Anos mais tarde, John Z. DeLorean escreveu uma carta ao produtor do filme, Bob Gale, dizendo: “Obrigado por manter meu sonho vivo”.

 

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John DeLorean morreu vitimado por um derrame em 19 de março de 2005 aos 80 anos. Em sua lápide está o DMC-12 entalhado com suas portas asa-de-gaivota abertas.

 

(Fonte: Flatout)

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